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quinta-feira, maio 29, 2003

 
Ainda não vi o Matrix

Escrevo de memória.

Já lá irão 8 ou 9 anos desde que António Pinto Leite profetizava que a década que aí vinha seria a década da qualidade. Escrevia APL, na sua habitual crónica na Revista do Expresso, que Portugal tinha sofrido espantosas transformações em apenas duas décadas. Era verdade. Desde 1974 e até meados de 90, Portugal conquistara a democracia, um regime estável, integrara-se na comunidade internacional e a economia dos anos do cavaquismo aproximara Portugal da Europa. Tínhamos auto-estradas novas, uma orgulhosa Expo em construção e grandes multinacionais instalavam-se em Portugal. A banca privada demonstrara aos portugueses que afinal era possível levantar dinheiro de um banco sem esperar horas numa fila e a Telecel ensinou-nos que se pode ter um telefone sem estar um ano em lista de espera.

O que faltava mudar? Muito. O estado e os serviços públicos. As obras sem respeito pelos cidadãos. O lixo nas praias. As casas de banho imundas de alguns cafés e restaurantes. O ruído em zonas habitacionais. A sinalização das estradas e das cidades. A polícia displicente. O urbanismo descontrolado de algumas autarquias. As listas de espera. Os maus professores que ninguém controlava. Nos balcões dos notários e das repartições, conseguir um qualquer documento do estado era equivalente a percorrer uma via sacra, criar uma pequena empresa era coisa para 6 meses.

Mas apesar de tudo, pairava a sensação que os portugueses estavam a ficar mais exigentes e pouco a pouco, o que estava mal seria mudado. Profetizava António Pinto leite que a revolução das mentalidades seria trabalho para a próxima década. Acreditei piamente naquele artigo e lembro-me de ter distribuido fotocópias por alguns amigos.

Depois veio a terceira via. A questão deixou de ser o dever de cidadania de cada um de nós e passou a falar-se apenas de direitos de cidadania. Em vez da cultura de exigência promoveu-se a cultura do facilitismo do "estado faz, o estado ajuda". Deu no que deu. Não sei se poderia ter sido diferente, mas resta-me acreditar que sim.

Desde Julho de 2002 que espero por uma certidão pedida na Conservatória do Registo Comercial de Cascais. É por estas e por outras que ainda não fui ver o Matrix. O 'hype' à volta da estreia elevou demasiado as expectativas. Chega de desilusões.

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