<$BlogRSDUrl$>

segunda-feira, agosto 18, 2003

  Questões Civilizacionais

Há exactamente 6 anos, a 18 de Agosto de 1997, publiquei este texto num forum de discussão da Usenet. Foi escrito a quente, por cima de uma experiência inesquecível. Provocou algumas reacções violentas, porque adjectivei 'caçadores' com palavras nada meigas. Nesses dias, debatia-se com paixão na comunicação social as vantagens e desvantagens da caça livre ou do regime associativo.

Hoje teria tido mais cuidado com as palavras, mas o conteúdo não poderia ser muito diferente. Este ano o número de caçadores foi reduzido e os terrenos estão vedados. Só duas coisas não mudaram: Os tiros acordaram-me outra vez às 5 horas e, infelizmente, na noite de 16 para 17 de Agosto de 2003, as garças e as cegonhas despareceram do Rio Séqua.

15 de Agosto de 1997 - Licença para Matar

15 de Agosto, 5 horas da manhã, uma casa de campo nas margens do Rio Séqua. Primeiro ouviu-se um tiro. Depois outro. E mais outro. Passados alguns minutos, já ninguem conseguia dormir. Encontrámo-nos todos numa varanda, com vista para o pomar e para o rio. O ritmo dos tiros é alucinante. Cada vez que se vê um pássaro no céu, ouve-se uma barragem de fogo, 10, 15, talvez 20 espingardas a disparar. Os pássaros geralmente perdem a guerra.

Rolas, patos? Não. Desses não há. Andorinhas, pardais, pombos, garças e cegonhas.

O que interessa é fazer o gosto ao dedo. Uma autêntica horda dispara a tudo o que voa. Os chumbos caem em cima da casa, nas hortas, nos carros. Há caçadores que se escondem debaixo de árvores de fruta, não respeitando vedações, terrenos arados, hortas, pomares. Quando se lhes pede para sair, alguns argumentam que têm todo o direito de ali estar. A festa dura até meio da tarde.

16 de Agosto de 1997

As garças e as gaivotas desapareceram do rio. As cegonhas desapareceram dos ninhos. No meio do pomar encontramos uma andorinha que já não voa, e outra que já não vive. Centenas de cartuchos abandonados nas margens do rio, latas de cerveja, lixo, cigarros. Uma gaivota morta, outra mais a frente, restos de laranjas roubadas aos pomares.

É isto o chamado regime livre? É para isto que se sucedem os debates na televisão, na rádio e nos jornais? São estes os direitos adquiridos reclamados pelas tais centenas de milhares de cidadãos?

Não há qualquer razão lógica para que um pais civilizado aceite esta barbárie, este comportamento criminoso, esta psicose de grupo predadora que se apodera desta gente.

O regime livrre ganhou uma dezena de antagonistas no dia 15 de Agosto, tantos como os que assistimos ao comportamento primitivo, medieval e mentecapto destes 'caçadores'.

jcd, Tavira/Lisboa, Agosto 1997


Fim de Página