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segunda-feira, setembro 08, 2003

  O Pecado do Lucro

R. é médico. Endocrinologista competente, dividia o seu tempo por 2 hospitais e, cada vez mais, pelo seu consultório particular. R. é adepto do papel crescente do estado na saúde, usa amiúde o argumento do 'pecado do lucro' e é activista contra a gestão privada dos hospitais. Apesar destas opiniões, um dos hospitais em que R. trabalhava era o Fernando Fonseca, mais conhecido por Amadora-Sintra.

Num jantar de amigos, R. informou-nos: 'Vou sair do Amadora-Sintra. Ganho mais do que no outro, mas com o consultório deixei de ter tempo para os dois hospitais.'

A minha pergunta, inocente, foi: 'Se ganhas mais no Amadora, porque é que não sais do outro?'

Respondeu-me: 'No hospital X(público), num dia dou 3 primeiras (consultas a novos doentes) e 3 continuações. (doentes antigos). No Amadora Sintra em 5 horas dou 15 consultas. É muito pior.'

Não entendi. 'É pior qual? O Amadora?'

Confirmou: 'Claro! Mas pagam-me à consulta, tenho que dar muitas. É muito pior!'

Quem não entendia nada era eu e o resto dos comensais. 'Mas então, se atendes 15 doentes no Amadora-Sintra e só 6 no outro... como é que é pior?'

R. explicou-me: 'Trabalho muito mais porque quantos mais doentes atender mais ganho; mas o problema maior é não me deixarem escolher a quem dou as consultas. No público somos nós que marcamos as segundas consultas e podemos escolher os doentes mais interessantes; além disso posso canalizar para lá doentes meus para fazerem as baterias de análises, que são muito caras. Assim os meus doentes poupam uma pipa de massa, no hospital são de borla.'

Mas, como é possível, perguntávamos, 'Num lado em 5 horas fazes 15 consultas... 20 minutos cada uma. no outro, em 6 horas dás 6 consultas... 1 hora cada...'

R. esclarecia-me, como se fosse a coisa mais óbvia deste mundo. 'Não, a maior parte demoram só 10 ou 15 minutos nos dois lados, mas temos tempo para outras coisas, para estudar, para tratarmos das nossas coisas, a pressão é muito menor.'

Perguntaram-lhe. 'Mas, ouve lá: a administração do hospital público não lhes impõe um número mínimo de consultas?'

A resposta foi esclarecedora: 'Era só o que faltava! quem decide somos nós. Entre todos os médicos da especialidade decidimos que cada um só faz 3 consultas a novos doentes e 3 somos nós que escolhemos. Se querem mais, a gente faz, mas em horas extraordinárias'

'E porque é que não deixas os dois e ficas só com o consultório?'

R. não pode deixar o público porque lhe faz falta para as continuações, e para as baterias de análises... dos seus doentes do consultório.

R. apenas assimilou uma atitude que se generalizou e que é assumida com naturalidade. Podem acreditar: R. é uma excelente pessoa e ao que consta um excelente médico.

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