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domingo, setembro 07, 2003

  O Zeca e o Luís

Pouco antes da morte de Zeca Afonso realizou-se um espectáculo de homenagem no Pavilhão da Amadora. Se bem me lembro, participaram Sérgio Godinho, Trovante e Teresa Silva Carvalho, entre outros. Zeca Afonso não actuou. Estava doente. A última vez que vi Zeca Afonso actuar ao vivo foi no espectáculo do Coliseu em 1994 (nem sei mesmo se foi o seu último espectáculo em vida). Nessa noite, Zeca não deu música, mas botou discurso. Foi penoso. O discurso político de Zeca Afonso sempre foi confrangedor e nessa noite não fugiu à regra. Uma dúzia de anos depois do 25 de Abril, Zeca Afonso alertou-nos para o fim da democracia, para o regresso do fascismo e da ditadura, para o fim da liberdade e para a censura que aí vinha. O perigo chamava-se Cavaco Silva.

Este Verão li com imenso prazer Patagonia Express de Luís Sepúlveda. Li-o de um fôlego e lamentei a última página por ter chegado quando o fim de tarde ainda estava longe. Hoje li a entrevista que a Visão publica com Luís Sepúlveda. O paralelo com Zeca Afonso é evidente. Tanto num caso como noutro, a genialidade anda a par da mais confrangedora ignorância, para não dizer boçalidade. É certo que Sepúlveda foi segurança de Allende e sofreu na pele a ditadura de Pinochet porque esteve na prisão. O que espanta é que tantos anos depois, vivendo em Espanha, ainda não compreenda o mundo em que vive. Nem mesmo o seu próprio país. (Vargas Llosa pode ajudá-lo.)

Aqui ficam alguns extratos da entrevista de Sepúlveda. Os comentários são meus.

“Queríamos construir uma revolução mais próxima de John Lennon do que Lenine. Não uma segunda Cuba mas sim um socialismo à chilena, de empadas e vinho tinto”

Santa Ilusão. Empadas e Vinho Tinto. Quanto ao vinho, não sei, mas em 3 anos empandeiraram quase tudo, é verdade.

“Desapareceu o velho país solidário e nasceu um país de merda, personalista, individualista”

Entre 1975 e 2000 os países cujo Índice de Desenvolvimento Humano mais cresceu em todo o mundo, foram (excluindo pequenos países e nações do fim da lista)a Coreia do Sul +28%, Malta +20%, Portugal +19%, Chile +18%, Israel +13%, Irlanda +13% e Espanha +11%.

“...devemo-nos alegrar quando morre um hijo de puta.” (sobre as mortes de Salazar e Franco).

Surpresa: Sepúlveda alegra-se quando Israel mata dirigentes do Hamas.

“Os EUA são a nação terrorista por excelência. Quando sujeitos tão fanáticos e perigosos como Wolfowitz, Rumsfeld ou essa espécie de Michael Jackson perverso que é Condolezza Rice assumem o poder, as consequências são terríveis. Foram capazes de montar a invasão do Iraque com a ajuda de uma Inglaterra com problemas económicos e de um imbecil chamado Aznar, megalómano atroz com fã de protagonismo.”

Eu tenho muito mais medo de fanáticos como Sepúlveda que dizem tamanhas imbecilidades, do que de dirigentes eleitos em regimes democráticos.

[O povo americano] “...a maioria é ainda mais ignorante do que parece. Os EUA são responsáveis por alguns dos mais perigosos retrocessos da humanidade.”

Claro, os EUA são o país mais atrasado, toda a gente sabe. E nada de chamar anti-americano ao homem...

[Os EUA] “É uma nação à qual continuam a chegar emigrantes que crescem e morrem sem nunca passar de um estado de sobrevivência. Viverão sempre em condições terrivelmente hostis.”

Nos EUA só as famílias tradicionais americanas é que têm hipótese. A imigração nunca foi a lado nenhum...

“Chega a doer quando alguém se diz de esquerda, mas não renuncia a parte da sua comodidade. Temos que vigiar constantemente a estupidez que nos rodeia e tenta devorar-nos. ... E sinto-me orgulhoso de não me ter transformado num burguês de merda”.

Vá lá pessoal. Tudo a dar o salário para acções de solidariedade e de ajuda aos mais desfavorecidos. E nada de dizer que ‘para esse peditório, já dei’.

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