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segunda-feira, dezembro 22, 2003

  Manipulações com Números

Mais forte que o aço, mais forte com o ferro, só uma folha de papel. O papel aguenta com tudo. Desde comboios que custam 7.500 milhões de euros, aeroportos virtuais que esperam mirabolantes milhões de passageiros, jogos de palavras caras e ilusórias, tudo parece verdadeiro numa folha de papel. Até notícias que não sendo falsas, enganam toda a gente.

Esta também foi notícia em todos os jornais, mas para o efeito, escolho o meu preferido. O título da notícia era este:

Um Quinto dos Portugueses Vive em Risco de Pobreza e Exclusão Social

Depois lê-se na notícia: "Apenas ultrapassada pela Irlanda (21 por cento), a situação portuguesa contrasta com países como a Suécia (dez por cento) e a Dinamarca (11 por cento) e é superior em cinco pontos percentuais à média da União Europeia, onde 55 milhões de pessoas vivem em risco de pobreza e de exclusão social, uma criança em cada cinco está ameaçada de pobreza e uma em cada dez vive numa família sem emprego."

Ah! A Irlanda! Afinal, ainda estão piores que nós... Esses malandros!

Mas afinal, o que é viver em risco de pobreza? Não ter dinheiro para comer? Não ter dinheiro para comprar um carro? Não ter casa? Nada disso. O artigo explica: "situação que ocorre nos agregados familiares onde o rendimento é inferior a 60 por cento da média nacional."

Ooops... espera aí! Como? Então... a Irlanda tem um PIBpc que é 125% do PIBpc da UE. Ora, 60% de 125%... dá 75%... Mais do que a média portuguesa. Mais de metade da população portuguesa é pobre segundo o padrão irlandês! Mas então... onde é que há mais pobres, em Portugal, ou na Irlanda? E se aplicássemos o critério, por exemplo... a Cuba? Segundo este critério, não há pobres em Cuba. São quase todos igualmente miseráveis, mas ninguém está abaixo de 60% da média nacional. Em Cuba, pobre só se tiver um rendimento inferior a 100€ por mês.

Esta definição é tão inteligente, tão inteligente que acontecem estas coisas, verdadeiramente brilhantes:

1. Se todos os milionários que vivem no Mónaco se mudassem para Portugal, o nível de pobreza aumentava em Portugal e diminuia no Mónaco, mas se, pelo contrário, os portugueses mais ricos transferissem os seus rendimentos para Espanha, o nível de pobreza em Portugal diminuia e em Espanha aumentava...

2. Se todos os portugueses passassem a ganhar o mesmo que um africano médio, a pobreza em Portugal... desaparecia.

3. Se daqui a 5 anos, todos os portugueses ganharem o dobro do que ganham hoje, o nível de pobreza não se modificará nem sequer uma décima.

4. Se desaparecessem subitamente os 5 milhões de portugueses que auferem maiores rendimentos, o nível de pobreza diminuia, mas se desaparecessem os 5 milhões mais pobres, o nível de pobreza aumentava.

Então, mas afinal, que raio de indicador é este? É o indicador preferido na nossa esquerda inteligente. Demonstra que os países ricos tem mais pobres que os outros, o insucesso do capitalismo.

Como este indicador não mede pobreza, mas desigualdade, quanto mais ricos houver, pior. E a desigualdade aumenta sempre que aumentam as oportunidades de enriquecimento da população, isto é, quando há crescimento económico. Por isso, há mais "pobres" na Irlanda. Mas os pobres irlandeses são cada vez mais ricos, o que não interessa muito divulgar... porque o capitalismo só pode ser mau e a prova é que gera pobreza e a maneira de medi-la é esta, porque todas as outras formas conhecidas demonstram exactamente o contrário...

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