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quinta-feira, fevereiro 19, 2004

  A Mesma Velha História

Versão 1 – Anos 80

Gritava-se:

"Garantam os nossos empregos. Sejam patriotas, comprem carros americanos. O que será da América se deixamos entrar neste país os produtos baratos e de má qualidade do Japão? Eles trabalham 7 dias por semana quase não têm férias, ganham uma ninharia. A América nunca mais recuperará desta crise do sector automóvel."

Dezenas de políticos, organizações sindicais e outros ‘fellow americans’ constituem-se em grupos de pressão para impedir e/ou criar tarifas especiais à entrada de carros japoneses nos EUA. A esquerda rejubilava com o fim eminente do capitalismo.

No fim da década de 80, um grupo de rapazes de Detroit desfraldaram bandeiras americanas enquanto escaqueiravam um Honda Civic em frente às câmaras de televisão. Michael Moore filma Roger & Me. Desde que o clarividente Moore profetizou a desgraça americana em 1989, a economia dos EUA desenvolveu-se a ritmos substanciais, deixou a Europa a longa distância e atravessou toda a década de 90 em crescimento permanente e com taxas de desemprego residuais.

Versão 2 – Início do Século XXI

Grita-se:

"Garantam os nossos empregos. Sejam patriotas, exijam software americano. O que será da América se deixarmos entrar neste país o software barato e de má qualidade da Índia? Eles trabalham 7 dias por semana sem férias e ganham uma ninharia. A América nunca mais recuperará da crise do outsourcing."

Ñeste momento, há nos EUA quem tente proibir o outsourcing. A Rescue American Jobs Foundation luta para que os trabalhadores indianos de software sejam atirados para o desemprego e por troca sejam contratados trabalhadores americanos para fazer o mesmo trabalho a um preço 35 vezes superior.

A Coalition for National Sovereignty and Economic Patriotism, quer que os EUA abandonem a NAFTA a Organização Mundial do Comércio, e o GATT. Portas fechadas. Explicam que o sucesso económico de um país consegue-se fazendo exactamente o contrário daquilo que os EUA sempre fizeram até hoje.

Tal como os profetas da desgraça dos anos 80, os novos protectores da América ainda não compreenderam que o aparecimento de uma indústria de software indiana pujante e de qualidade é um inegável factor de sucesso para a economia mundial e principalmente para dois países: Os EUA e a Índia.

É verdade: não posso ser programador de computadores indiferenciado e ganhar 70.000 USD por ano. É pena, principalmente se apostei nessa carreira toda a minha vida. Mas também não posso ser ferreiro, correeiro, técnico de máquinas de cartão perfurado ou fabricante de bolas de futebol em Portugal. Esses empregos já não existem e nunca mais existirão.

Estas organizações americanas vivem por cima de uma dramática ilusão: estão convencidas que podem proibir a contratação de produção de software para os seus equipamentos fora dos EUA. Terrível engano: se o outsourcing de software for proibido, as empresas passarão a comprar todos os equipamentos, software incluido, fora dos EUA.

Para bem de todos. Afinal, se os americanos ganhassem salários equivalentes aos indianos, este problema nem existiria...

Versão 3 – Portugal 2004.

A facção mais retrógrada do Partido Socialista, reúne-se num clube a que chamaram Liberdade e Cidadania. Ontem falaram nas desgraças da globalização. Têm ideias semelhantes às dos grupos americanos acima citados.

Na mesa, Ana Benavente, Ana Gomes e Manuel Alegre. Espera-se, definitivamente, o pior.

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