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terça-feira, fevereiro 17, 2004

  Milagres Matemáticos no País Profundo

Estava eu aí a circular pelo país e a zappar pelas rádios locais (passatempo que faço com prazer, não há nada como ouvir o relato de um jogo entre o Pinheirograndense e o Famajões feito por um comentador parcial em voz excitada e com pronúncia beirã) quando apanho um debate entre figuras políticas de uma qualquer terra entre o IP3 e o IP5. Um debate típico: o populismo do PP, a demagogia do PC, o "governo-faz-a-câmara-não" do PSD, o "a-câmara-faz-o-governo-não" do PS, o "aborto-cannabis-uniões gay" do Bloco.

E passou-se pelo PEC e pelo déficite, devem baixar o déficite e gastar mais, e por aí fora, quando começam todos a concordar que se não fosse a fuga fiscal isto seria um país de gritos, e haja saúde, estão todos de acordo, o problema é dos tipos que fogem ao fisco. "Tamos a resolver, tamos a resolver" gritava o senhor do PSD, "Não tão nada!", replicavam os outros, e então o senhor do Bloco sentenciou: "todos os anos são 37 Pontes Vasco da Gama de fuga fiscal", "é pá, 37 é um exagero, são só três ou duas e meia, 37 não", discordava o do PP, "são 37, 10.000 milhões de contos a dividir por 300 dá 37, eu faço as contas" respondia o bloquista, "é pá, mas isso é quase metade do PIB, se já gastam metade, então somos todos fugitivos" e vai de lol, lol, lol, riam eles, "mas isso já vem detrás", argumentava o PP, "já vem sim, vem do Cavaco", dizia o do PS, "nã, nã, do Cavaco já deve ter tudo prescrito", sentenciava o do PSD, "37, eu cá não atiro números para o ar como o ministro da saúde" insistia o bloquista, 37, são TRINTA E SETE! 37"... "é pá deve estar a faltar-te uma vírgula", "e um parafuso, pá" lol lol lol.

E então o do Bloco saca duns papéis e ataca o combate fiscal que é "uma vergonha, UMA VERGONHA! Diz aqui no Expresso, que é do Balsemão e do governo do Barroso e do Portas que de 2002 para 2003, a Direcção de Impostos aumentou o tempo médio dos processos em espera de 39 vírgula picos para 56 vírgula picos!", "É é, eu também li" confirmava o do PCP, "a Ferreira Leite num ano aumentou o tempo médio de espera de 17 meses!", "é no que dão os cortes cegos, a gente avisou", dizia o do PS. "Deixe-me lá ler isso" pedia o do PSD, "tá aqui, tá aqui" mostrava o do Bloco por entre uma chinfrineira de conversas cruzadas com barulho de manuseamento de papel de jornal em frente aos microfones. "Ahhh... pois... mas não deve ser isso... isso deve ser o tempo dos novos processos só... ah!!! pois claro! 56 meses vai dar tudo ao tempo do Guterres" concluia com evidente alegria o senhor do PSD, "não, não, 56 meses são dos processos novos, os antigos eram só trinta e poucos meses" defendia-se o do PS. "Nã, nã, ora 56 meses, são 5 anos.. 4 anos... 5 anos e 2 meses...não... ora 5 vezes 12 dá 60, 4 vezes 12 dá 48 se são 56 são mais 8, ora dá 2000... 1999! Foi tudo do Pina Moura" computava com felicidade o do PSD, "oiça lá, mas isto são médias, se a média aumenta é porque os novos estão mais demorados e os novos são da Ferreira Leite" dizia o do PS, "é tudo o mesmo, são todos iguais, o Guterres também governou à direita" ria-se o do PCP, "eu explico-vos" elucidava o bloquista, "os velhos ficaram lá todos e os novos já vão em 17 meses, são os deste governo" "não, assim a média baixava" dizia pouco convencido o do PSD, "está no vosso jornal, é um facto e contra factos não há argumentos" concluiu vitorioso o bloquista que falava muito mais alto que os outros.

Por aqui começei a perder o sinal. E que pena tive. Gostava de perceber afinal que processos são esses que conseguem aumentar em 12 meses o prazo médio em 17... Mas isso são apenas milagres da matemática. Está no Expresso, é um facto. Até porque se assim não fosse, em 10 anos, teríamos 370 novas pontes Vasco da Gama.

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