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quinta-feira, abril 29, 2004

  Fora com o Galvão!

O jornal República ocupado, nas mãos da extrema-esquerda, era algo parecedo com o actual 24 Horas. Qualquer rumor revolucionário era notícia. Em 16 de Agosto de 1975, o República publicou um artigo sobre Galvão de Melo e esse artigo foi o suficiente para Américo Duarte, deputado do Bloco da UDP, entrar em acção.

A 20 de Agosto de 1975, Américo Duarte apresentou o seguinte requerimento:

"Requerimento do Deputado da UDP, Américo Duarte:

Que o Governo investigue do artigo vindo no jornal República de 16 de Agosto de 1975, onde vêm declarações proferidas por Galvão de Melo, que passo a transcrever: "Galvão de Melo possuía cópias dos arquivos da ex-PIDE/DGS guardadas em duas embaixadas."

Américo dos Reis Duarte (UDP)."


Ainda este requerimento estava quente quando o secretário da mesa anuncia:

O Secretário: "Há ainda outro requerimento do Deputado da UDP, Américo dos Reis Duarte, que, depois de vários considerandos, requer que a Mesa ponha imediatamente à votação desta Assembleia a expulsão do Deputado do CDS Galvão de Melo."

Risos.

Continua o secretário: "A Mesa não aceita este requerimento, apenas leu as suas conclusões, para melhor informação desta Assembleia."

Américo Duarte: "Fora o fascista do Galvão de Melo."

O Secretário: "E não aceita, nos precisos termos do artigo 12.º do Regimento, visto que o requerido relativamente ao Deputado Galvão de Melo não está em nenhuma das alíneas do referido artigo e porque, além do mais, se exige conhecimento comprovado de qualquer desses factos, e isso não existe. A Mesa, em rigoroso cumprimento desse Regimento ..."

Américo Duarte: "A Mesa é fascista!"

O Secretário: "... não aceita o requerimento. Todavia, o Sr. Deputado pode interpor recurso desta rejeição."

Américo Duarte: "O recurso dá-o o povo."

Risos.

Algum tempo depois, Américo Duarte pede novamente a palavra.

O Presidente: "Tem a palavra o Sr. Deputado Américo Duarte."

Américo Duarte começa assim o seu discurso: "Perante as provocações e infâmias que o fascista Galvão de Melo para aqui tem feito contra as posições defendidas pela UDP nesta Assembleia Constituinte, quero esclarecer em primeiro lugar que não me venho defender, mas sim acusar. Não é a fascistas ou a reaccionários e traidores que eu reconheço o poder de me julgarem. Só a classe operária, a que pertenço, e o povo trabalhador deste País poderão julgar as minhas atitudes, os meus actos e se de facto tenho ou não defendido os seus interesses.

Portanto, a defesa que eu quero apresentar é um ataque claro e objectivo ao fascista Galvão de Melo.

[...]

Nós sabemos que esse senhor apareceu ligado ao golpe do 11 de Março, tendo inclusivamente havido ordem de prisão. Mais tarde, miraculosamente, aparece ilibado como se nada fosse com ele, que estava simplesmente num hotel em Viseu.
Aliás, também no 28 de Setembro esse senhor foi apanhado no Sheraton, hotel pertencente à ITT, comandada pela CIA.

[...]

... numa outra entrevista ao semanário espanhol Mundo, controlado pela Opus Dei, esse senhor diz que «é capaz de preferir a guerra civil, afirma que o golpe de 11 de Março foi urdido pela extrema esquerda. Quis esse fascista dizer que á morte do soldado do RAL 1 foi uma mentira, e quis, claro está, encobrir e desculpar o colonial-fascista Spinola e Sanches Osório. Depois disto, o Sr. Galvão de Melo vem fazer insinuações provocatórias, e pior do que isso, passamos a ler uma notícia vinda na República, de 16 de Agosto de 1975:

Bronzeando-se na piscina do Hotel Atlântico, ..."


Risos.

Américo Duarte: "... o general Galvão de Melo, na presença de Jaime Neves e outras testemunhas, afirmou poder provar as suas afirmações, proferidas na Assembleia Constituinte, acerca do Deputado da UDP, Américo Duarte, pois possuía cópias dos arquivos da exPIDE/DGS guardadas em duas embaixadas estrangeiras, sendo uma delas a da Alemanha.

Segundo esta notícia do República, este senhor, além de todas as acções fascistas, roubou documentos que pertencem ao Estado Português e ao povo português.

Este senhor só falou na última quarta-feira, depois de ter estado durante dois meses calado. Isto só quer dizer que os seus chefes o mandaram intervir para que ele aparecesse neste momento, em que os fascistas levantam a cabeça, fazem actos terroristas e querem acabar com as conquistas já alcançadas pelo povo português. Os fascistas actuam hoje em Portugal para que voltemos ao 24 de Abril.

Daqui alertamos as massas populares para que, não nos deixando dividir pelos inimigos do povo, avancemos numa ofensiva popular contra o fascismo, gritando bem alto:

Morte ao fascismo e a quem o apoiar!

Mais queria dizer a UDP. Daqui, da Assembleia burguesa e fascista, convoca todos..."


Apupos e assobios.

Américo Duarte: "... todos os operários e camponeses..."

Agitação na Sala.

Américo Duarte: ".. todos os soldados e marinheiros, todos os trabalhadores e antifascistas anti-imperialistas."

Apupos.

Américo Duarte: "Temos vindo a assistir nas últimas semanas a uma escalada violenta dos fascistas."

O Presidente: "Eu chamo a atenção do Sr. Deputado, a quem não quero de maneira alguma retirar o direito de se desagravar. Mas peço-lhe, no entanto, e julgo que há-de compreender a minha posição, que modere um pouco as suas expressões, para não obrigar efectivamente a Mesa a praticar um acto que seria manifestamente contrário à sua maneira de ser: ver-se obrigada a cortar-lhe a palavra."

Américo Duarte: "Queria alertar todos os operários e camponeses, todos os soldados e marinheiros, todos os trabalhadores antifascistas e anti-imperialistas. Temos vindo a assistir nas últimas semanas a uma escalada violenta dos fascistas, que, devido à política de conciliação e de inoperância dos sucessivos Governos Provisórios, tem arrastado consigo até alguns sectores das classes trabalhadoras:

Contra o fascismo, contra o capital. Ofensiva popular. Morte ao ELP e a quem o apoiar.

[...]

Contra os imperialismos- independência nacional. Contra as superpotências- unidade com o Terceiro Mundo.

[...]

Vivam - os camponeses, irmãos dos operários. Fim aos latifúndios e à exploração dos camponeses. Fim à miséria dos camponeses. Só um programa verdadeiramente revolucionário poderá dar saída aos graves problemas com que nos debatemos. O programa apresentado por oficiais afectos ao COPCON é no momento actual a única saída possível. Forças armadas revolucionárias com o povo trabalhador. Aplicação imediata do documento do COPCON.

Operários e camponeses, soldados e marinheiros, unidos venceremos. Soldados sempre, sempre ao lado do povo. Dissolução da Constituinte, já."


Apupos. Grande agitação na Sala. Manifestações nas galerias. O presidente da Assembleia avisa mais uma vez que as galerias não se podem manifestar.

Américo Duarte contesta: "Eu só queria dizer que o povo que lá está em cima é aquele que paga para estes senhores estarem aqui em baixo."

Vozes: "Qual povo?"

Aplausos das galerias. Agitação na Sala. O presidente pede a atenção da Assembleia:

O Presidente: "O Sr. Deputado Américo Duarte não tem necessidade de seguir esse caminho. Continuará a sua intervenção, que não será interrompida por mim, mas peço-lhe que seja comedido e correcto nas suas posições. Porque não há necessidade nenhuma de continuar nesse tom, ao fazer a sua defesa e manifestar o seu desagrado ou suscitar possivelmente a outra pessoa qualquer desta Assembleia as explicações que forem convenientes. Eu peço-lhe, não digo o favor, porque não se trata de um favor, pois trata-se de uma coisa regimental, peço-lhe, repito, que ajude a presidência na boa ordem e no bom seguimento destes trabalhos."

Américo Duarte continua como se não tivesse nada a ver com o assunto: "Por tudo isto convidamos todos os operários, camponeses, soldados e marinheiros, sargentos e oficiais progressistas e todos os trabalhadores antifascistas e anti-imperialistas a integrarem-se na manifestação unitária antifascista e anti-imperialista a realizar na próxima quarta-feira, 20 de Agosto, com concentração no Terreiro do Paço, às 19 horas e 30 minutos.

Morte ao fascismo. As comissões de moradores e de ocupantes: Casal Ventoso, Alto da Eira, Vale Escuro, Peixinhos, Nossa Senhora da Graça, Bairro Américo, Rio Seco, Cruzeiro, Revolucionária Autónoma do Santo Condestável, Carnaxide, Bairro da Lata de Sete Moinhos (zona centro). As comissões de trabalhadores: Applied, LNEC.


Aplausos do Sr. Deputado Galvão de Melo. Risos.

Galvão de Melo pode a palavra:

Galvão de Melo (CDS): "Muito obrigado, mas não é propriamente para dar explicações, que pelo menos até este momento ainda não tenho de as dar. Sr. Presidente, Srs. Deputados. A opinião que faço do nosso distintíssimo colega da UDP já todos a conhecem e não vale a pena repetir. Em todo o caso, eu só queria fazer aqui uma pequena pergunta. É que, ao referir-se a uma notícia que viria num determinado jornal do dia 16, sobre o facto de me ter estado a bronzear numa determinada piscina (que estive a bronzear-me não se pode negar porque se vê) ..."

Risos.

Galvão de Melo: "... eu gostava de saber qual o dia em que isso se passou. Citou, além disso, uma conversa com o Sr. Coronel Jaime Neves acerca de uns documentos que eu teria guardados em pelo menos duas embaixadas - é capaz de ser mais - (risos). Ele disse que o jornal é do dia 16, mas não disse em que dia é que eu estava a bronzear-me e em que eu tive essa conversa com o Sr. Coronel Jaime Neves. Eu gostava que isso fosse aqui concretizado. Por isso pergunto ao nosso colega Deputado da UDP exactamente a que dia se refere essa notícia."

O Presidente: "Quer o Sr. Deputado responder? A Mesa poderá condescender, embora me pareça ..."

Américo Duarte: "Eu só tenho a dizer que a fascistas não dou respostas nenhumas."

Risos. Manifestações nas galerias.

Galvão de Melo: "... Bem, eu posso deduzir que, uma vez que esse jornal é do dia 16, ele se refere exactamente ao feriado do dia 15, excelente dia para a gente se bronzear na piscina. (Risos) Mas está coro pouca sorte o jornal, está com pouca sorte o Sr. Deputado. É que no dia 15 eu estive no Norte do País, em Fermentelos, à caça aos patos."

Risos. Pausa. Octávio Pato estava sentado na bancada do PCP.

Galvão de Melo: "Eu confesso que cometi uma gaffe, sem querer, mas estive à caça aos patos, patos com asas, patos autênticos."

Risos.

Galvão de Melo: "E disso tenho imensas testemunhas. Portanto, isso é apenas uma pequena mentirinha do nosso colega. O resto são tudo mentiras."

A discussão acabou por aqui. As pequenas mentirinhas, essas, continuaram por muitos anos.

Fim de Página