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quarta-feira, abril 28, 2004

  A Provocação

14 de Agosto de 1975. O deputado da UDP, Américo Duarte, faz mais um dos seus discursos em que distribuiu insultos a eito. Começou assim:

Américo Duarte: "O povo trabalhador de Portugal vive hoje um dos momentos mais difíceis da sua luta desde o 25 de Abril. Os fascistas levantam a cabeça e estão em plena escalada no Centro e Norte do País. O assassino Spínola já dá entrevistas à BBC, onde diz que lutará, citamos, «em todos os tantos e por todas as formas», nós sublinhamos «por todas as formas», por aquilo a que chama a libertação de um povo."

Agitação na Assembleia.

Américo Duarte: "Este colonial-fascista, assassino dos povos irmãos das colónias e assassino do povo português fez até ameaças veladas de guerra civil em Portugal, a exemplo, também, do Sr. Galvão de Melo."

O discurso prosseguiu com insultos e acusações da mesma estirpe a Cunhal, Soares, Melo Antunes, aos imperialistas americanos e os sociais-imperialistas russos e aos lacaios de Cunhal. Alguns minutos mais tarde, Galvão de Melo, o general que fizera parte da Junta de Salvação Nacional e que era agora deputado do CDS, pediu a palavra para ler um requerimento:

Galvão de Melo: "Sr. Presidente e Srs. Deputados: Vou ler um requerimento que acabei de entregar na Mesa:

Sr. Presidente, Srs. Deputados:

Já por repetidas vezes o nosso distintíssimo colega Sr. Américo Duarte, Deputado pela UDP, aqui proferiu criticas pessoais visando directamente Deputados de todos os restantes partidos, eu próprio, e, certa vez, nem o Movimento das Forças Armadas escapou, ao ser «atacado» um dos seus membros: o Sr. Tenente Judas, presidente da comissão de desmantelamento da Direcção-Geral de Segurança.

Estes «ataques», que o nosso distintíssimo colega não pensou nem escreveu e tão-somente nos leu o melhor que pode, só não são insultantes por virem de quem vêm; só não são insultantes porque aquele que os proferiu é o primeiro a não compreender (risos). Estes desabafos, para além de simples divergência política, revelam um nervosismo e uma raiva incutida que começa a ser suspeita. Revelam medo! Medo de quê?

O excesso de agressividade é sempre revelador de um sentimento de medo.

Ora, tenho verificado que a agressividade do Sr. Américo Duarte explode com violência impressionante sempre que, directa ou indirectamente, vem ao caso mencionar a antiga Polícia Internacional e de Defesa do Estado, que mais tarde passou a designar-se por Direcção-Geral de Segurança.

Porquê esta preocupação tão específica?

Será que com o seu vozear tonitruante o Sr. Américo Duarte pretende abafar algum prurido de consciência antiga?

Será que o Sr. Américo Duarte, ou alguém que por trás dele se esconde, ou na frente se mostra (risos), tenha, de qualquer modo, tido ligações profissionais com a polícia que durante meio século foi sustentáculo da ditadura derrubada em 25 de Abril?

De facto, possui o Sr. Américo Duarte duas características que, bem aproveitadas, teriam feito de si um informador por excelência de qualquer polícia política:

Obediência de autómato;
Ousadia em declarar o que não sabe.

Tendo em conta as considerações expostas, e ao abrigo do artigo 6.º, n.º 9.º, e artigo 12.º, n.º 1, alínea a), do Regimento, requeiro ao Presidente deste Assembleia que use de todos os meios ao seu dispor para esclarecer os duzentos e cinquenta. membros desta Assembleia, representantes do povo de Portugal, aqui reunidos, sobre esta grave dúvida: foi ou não o Sr. Américo Duarte informador da PIDE/DGS?"


Após as gargalhadas e bastante burburinho, a sessão prosseguiu. Mais tarde, no período da ordem do dia, Américo Duarte manifestou a sua indignação com uma declaração de protesto que foi lida pelo secretário da mesa da Assembleia:

"Declaração de protesto ao Presidente e de alerta ao povo português:

1.º O Sr. Galvão de Melo acabou de lançar uma provocação ao povo português (risos), quando, depois de fazer um discurso reaccionário, perguntou a certa altura «de que é que se esperava?», na clara intenção de perguntar às forças reaccionárias se não seria esta a altura de lançar um golpe fascista;

2.º Esse senhor, não contente com isso, faz um requerimento atacando a posição da UDP, representada nesta Assembleia, lançando provocações e calúnias que não são tomadas por uma afronta pessoal, mas a tentativa de uma provocacão generalizada às massas populares;"


Aplausos e manifestações das galerias.

O Presidente: "O público não está autorizado a manifestar-se."
O Secretário: "Não era público, Sr. Presidente. Eram duas pessoas ..."
O Presidente: "Componentes do público."

continuou o secretário:

"3.º A UDP foi a única a apresentar nesta Assembleia, logo na primeira sessão que a Comissão de Verificação de Poderes, averiguando das ligações dos Deputados presentes nesta Sala, e em especial de Galvão de Melo, que tanto no 28 de Setembro como no 11 de Março apareceu embrulhado nos golpes, com forças fascistas;

4.º Para nós, as duas intervenções desse senhor feitas hoje e que até agora não tinha falado, mostram bem o levantar de cabeça do fascismo, perante o qual o povo tem de estar preparado para responder, e mais do que isso, que o Sr. Deputado Galvão de Melo está disposto a passar das palavras aos actos, ou seja ser a cabeça e o corpo de um novo golpe fascista, como afirmou a um jornal espanhol. Daqui alertamos as massas populares para estafem vigilantes e unidas, de formei â esmagar o avanço fascista."


Galvão de Melo pede a palavra: "Sr. Presidente, Srs. Deputados: ..."

Manifestações nas galerias.

Américo Duarte abandona a Sala e de caminho grita para Galvão de Melo: "Hás-de ir parar ao Campo Pequeno!"

Galvão de Melo acabou por pedir desculpa à Assembleia por ter abusado da paciência dos deputados.

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