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quinta-feira, maio 06, 2004

  Especulações

Tenho alguma simpatia por Luís Nazaré, apesar de três grandes defeitos que o caracterizam: não é sportinguista, nem algarvio, nem liberal. Luís Nazaré leu um qualquer artigo num jornal de Miami e logo escreveu este post:

"Petróleo - Segundo o Miami Herald, se não houvesse especuladores de ouro preto, o preço do barril seria de 33 dólares em vez dos 38 dólares que recentemente atingiu nos mercados internacionais. O que é interessante é que a maioria dos especuladores são particulares abastados – ou, mais precisamente, fundos dirigidos a esse segmento -, desiludidos com o mercado accionista e ávidos de retornos rápidos. Bastam 100 mil dólares para entrar no clube. É o mercado livre a funcionar. Luís Nazaré"

Interessante.

Caro Luís Nazaré: É fácil encontrar nos jornais muitas teorias simplistas para explicar fenómenos de arbitragem de preço de 'commodities' com base em mecanismos miraculosos de especulação. Convém é perceber que para influenciar tanto o preço do petróleo, é preciso comprar muito, muito, muito petróleo, ou, principalmente, prometer comprar muito, muito, muito petróleo. E quem compra muito, muito, muito petróleo ou promete comprar muito, muito, muito petróleo, um dia tem que vender muito, muito, muito petróleo. E para ganhar com a especulação, terá que vender muito, muito, muito caro. Mas com o excesso de oferta, nesses dias o petróleo ficará muito, muito, muito mais barato. A não ser que encontrasse muitos, muitos, muitos especuladores, muitos mais do que os que já compraram muito, muito, muito petróleo. E o mais provável seria perder muitos, muitos, muitos dólares.

Na prática, todos estes 'especuladores' são price-takers, navegando à vista num mercado em que apostam na continuação da subida de preços por escassez de oferta ou aumento de procura. Ou nem sequer apostam. Satisfazem simplemente 'encomendas' dos seus clientes de fixação de preço a prazo. Não nos podemos esquecer que há grandes fornecedores que se chamam Iraque, Venezuela, Angola ou Nigeria, que acrescentam um risco político de quebras de fornecimento que não pode ser ignorado.

Mas se quisermos admitir que foram os 'especuladores' que realmente influenciaram para cima o preço do petróleo, isso só quer dizer que em breve veremos uma baixa acentuada, quando todos os 'especuladores' estiverem a nadar em contratos de petróleo sem ninguém disposto a pagar o preço especulativo.

Nos mercado onde praticamente todos os compradores têm pequena dimensão, a especulação pura, seria apenas um jogo de alto risco. Admito que haja quem o faça. Mas neste caso, o preço teria muito pouco a ver com os jogadores. Aqui explica-se melhor a coisa. E aqui, explica-se porque é que os 'especuladores' podem apanhar um grande susto.

Os chamados 'especuladores' têm um importante papel a desempenhar neste mercado. Aqui explica-se porquê:

"Far from being disruptive or "unconscionable," this sort of speculative demand performs an important economic function. If people were mechanistic and did not anticipate the future, a cutoff of Middle Eastern oil would disrupt the economy by causing a sudden drop in supply and a huge jump in prices. Speculative anticipation eases this volatility by raising prices more gradually; then, if supply is sharply cut off, speculators can unload their oil or gasoline stocks at a profit and lower prices from what they would have been. In short, speculators, by anticipating the future, help to smooth fluctuations and to allocate oil or any other commodity to its most-valued uses, over time."

E, caro Luís Nazaré, o mercado de petróleo é um cartel. Um mau cartel, mas nem por isso deixa de ser um cartel. E um cartel, nunca é "o mercado livre a funcionar".

Nota: 'Especuladores' são geralmente Fundos de Investimento onde muitas vezes estão aplicadas, directa ou indirectamente, as nossas pequenas poupanças. Ou Fundos de Cobertura de Risco que tentam fixar os preços de aquisição futuros para protecção do risco dos seus clientes, onde se inclui, por exemplo, a Galp.

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