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quinta-feira, junho 03, 2004

  Ignacio, Ignacio - (parte 2/2)

Andava eu às voltas com os textos do tal Ignacio Ramonet quando topo com uma prosa do senhor que foi transcrita no Samizdata.

O Ignacio resolveu aclarar de uma só vez tudo aquilo em que acredita. Não, ainda não é desta que vamos finalmente perceber qual é o modelo económico alternativo que a esquerda do Ignacio defende. Desde o flop da economia planificada e dos planos quinquenais que essa tal alternativa se esconde. O Ignacio também não ajuda: limita-se a ser contra a liberdade económica e contra o capitalismo. Vai na onda. Mas se o Ignacio não explica tudo, pelo menos manda umas bocas e sempre é melhor que nada. Aqui fica o palavrório do Ignacio, comentado.

"RESISTANCE means saying no."

Isso já todos percebemos. Resistência significa ser do contra. Ser a favor dá uma trabalheira. E para se ser a favor é preciso saber-se do que é que se é a favor. O Inácio só sabe que é do contra. Nada de novo a leste.

"No to contempt"

A esquerda está sempre contra e, principalmente, está contra a mudança. Logo escrever "no to contempt" é assim a modos como o João Pinto ou o Deco dizerem "no to simulations". Ó Ignacio... esta não faz muito sentido, pois não?

"[No to] arrogance and economic bullying."

Até compreendo o Ignacio. Afinal, a esquerda no poder nunca foi capaz de outra coisa que não "economic bearing". E já agora, Louçã, cuidadinho. O Ignacio não gosta de arrogantes...

"No to the new masters of the world: high finance, the countries of the G8, the Washington consensus."

Traduzindo isto por miúdos, o Ignacio é contra a Caixa Geral de Depósitos, contra os países democráticos mais bem sucedidos do nosso mundo e contra o ensino de Economia. Se o Ignacio estivesse a falar de saúde, seria contra os hospitais centrais, as técnicas de cirurgia mais modernas e contra a medicina que se ensina nas universidades. O Ignacio seria um curandeiro.

"[No to] the dictatorship of the market and unchecked free trade."

O Ignacio é também contra a ditadura do Mercado e contra o comércio livre "unchecked". Eu também sou contra todas as ditaduras. Só não sei quem será este ditador que nos obriga a comprar as coisas que nós não queremos. Ou será que, aquilo a que o Ignacio chama ditadura de mercado, não será simplesmente... a liberdade dos consumidores? O que o Inácio deve gostar mesmo é das lojas do Povo... desde que ele possa comprar as suas coisitas nas lojas capitalistas de Paris, obviamente.

"No to the quartet of the World Bank, International Monetary Fund, World Trade Organisation and the Organisation for Economic Cooperation and Development."

O Ignacio prefere que os países mais pobres não tenham ajudas ao desenvolvimento, apenas ajudas à miséria. O Ignacio acha que os estados falidos não devem ser ajudados. O Ignacio quer que os países que empobreceram ou nunca enriqueceram devido a décadas de proteccionismo continuem na mesma. O Ignacio é um tipo deveras inteligente e amigo dos mais desfavorecidos.

"No to hyper-production"

O que será a hiper-produção? Então o problema do mundo não é a falta de bens que afecta uma significativa fatia da humanidade? A tal que nunca soube o que era liberdade e democracia? E quem serão esses empresários chanfrados que andam a hiper-produzir artigos sem mercado? O que vale é que esses malucos vão falir todos e assim se acaba a hiper-produção... não é Ignacio?

Ou será que o Ignacio não tem automóvel, DVD, frigoríco, micro-ondas, livros... Explica lá, Ignacio, o que é que tu queres que não se produza?

"No to genetically modified crops."

O Ignacio não é contra os alimentos geneticamente modificados que sempre comeu. O Ignacio é contra os alimentos geneticamente modificados produzidos por multinacionais capitalistas globalizadoras neo-liberais.

"No to permanent privatisations."

Estou totalmente de acordo com o Ignacio. E a melhor maneira de evitar as privatizações é acabar de uma vez com as empresas públicas. Poupávamos uma pipa de massa, não destruíamos recursos escassos com ineficiências centralmente geradas... Ya, Ignacio, nesta estamos de acordo.

"No to the relentless spread of the private sector."

Ignacio, o sector privado... somos todos nós. E é o sector privado que paga o sector público. O que é que queres afinal, Ignacio? Então se tu queres um sector público cada vez maior e um sector privado cada vez mais pequeno... quem vai pagar, Ignacio?

"No to exclusion. No to sexism. No to social regression, poverty, inequality and the dismantling of the welfare state."

Tens toda a razão, Ignacio. Gritemos bem alto: NÃO! Não te esqueças, Ignacio, que a limitação da pobreza a níveis residuais, o bem-estar generalizado e a segurança social só conseguiram alguma eficácia nas melhores democracias capitalistas. Apenas os mercados livres possibilitaram a obtenção de níveis de riqueza que permitem suportar os custos dos tão amados estados sociais. Fico feliz por saber que, afinal, defendemos as mesmas coisas. O que eu não quero é matar a galinha dos ovos de ouro... (duvido que percebas os fundamentos desta imagem).

"No to the abandonment of the South."

Pera lá? Mas não és tu que queres impedir a "inclusão" do sul? Não és tu que queres fechar as fronteiras dos países pobres? Afinal, queres que se invista nos países mais desfavorecidos, ou não? Vê lá se te decides, pá!

"No to the daily deaths of 30,000 poor children."

Estamos absolutamente de acordo. Todas as crianças devem ter a mesma sorte das que nascem nas democracias ocidentais capitalistas que o Ignacio não gosta. Devem ter a sorte das crianças de Taiwan, que ainda há 40 anos morriam a níveis superiores aos da China Continental. As crianças da Coreia do Norte devem ter a mesma sorte das crianças da Coreia do Sul. As crianças do Vietnam devem ter acesso aos mesmos cuidados de saúde das vizinhas crianças malaias... Há um largo caminho a percorrer, Ignacio. Não sei é porque te vejo nesse caminho a olhar para trás em vez de caminhar em passo firme para a frente.

"No to the destruction of the environment."

Muito bem, Ignacio. E tu, já terás feito a tua "mea culpa"?. É que tu, velho apoiante dos regimes comunistas, deves reconhecer que foram justamente esses pobres povos que assistiram aos maiores atentados ambientais de que há memória. Não me refiro a acidentes. Refiro-me mesmo a barbaridades, como o crime do Mar Aral, por exemplo. Sim, porque eu não acredito que tu sejas como alguns que por aí andam e que tudo fazem para renegar o passado.

"No to the military hegemony of a sole superpower."

Estou de acordo! Vamos derrotá-los! Tu vais à frente, Ignacio.

"No to "preventive" war, to invasion..."

Ó Ignacio, tá bem? Mas promete-me que quando uma qualquer guerra começar, não vais ser o tu o primeiro a acusar os EUA, a NATO ou as Nacões Unidas por não terem agido a tempo...

"No to terrorism and to attacks on civilians."

Bem-vindo ao clube. (já aprendi alguma coisa com a Edite). Já agora, nas 150 crónicas que tens disponíveis, encontro bastantes (quase 150, diga-se...) que falam mal dos EUA, do poder da super-potência e da malvadez de Israel. Raramente criticas os assassinos do Hamas, dos Mártires de al-Aqsa e outros quejandos, a não ser quando os queres comparar com governos eleitos de nações ocidentais. Diga-se que essa tua preocupação com os assassinos que agora colocam bombas no Iraque, em Espanha ou em Marrocos não me pareceu muito sentida... Será um bug informático?

"No to racism, anti-semitism and islamophobia."

Muito bem. Não queres acrescentar "no to antiamericanism"?

"No to draconian security measures. No to a police state mentality."

Está bem. Promete só que quando houver mais um atentado não atribuis as culpas à falta de segurança, ok?

"No to dumbing-down."

IGNACIO!!! Have a mirror?

"[No]To censorship. To media lies. To manipulative media."

IGNACIO!!! Have a mirror?

"Resistance also means saying yes."

Ena, ena! Finalmente, a favor de alguma coisa!...

"Yes to solidarity between the six billion inhabitants of this planet."

Referes-te à solidariedade socialista (isto é, gritar que temos pena dos mais desfavorecidos) ou à solidariedade capitalista (isto é, dar a oportunidade aos que precisam de solidariedade de seguirem o mesmo caminho que nós?)

"Yes to the rights of women."

IGNACIO! Estás a ser islamofóbico!

"Yes to a renewed United Nations."

De acordo. Obriguemos todas as nações a renovarem as Nações Unidas.

"Yes to a new Marshall plan to help Africa."

Hmmm... mas para isso... precisamos dos capitalistas, não é? Quem mais pode pagar? Mas o Ignacio não quer acabar com os capitalistas?

"Yes to the total elimination of illiteracy."

Eu preferia erradicar antes a fome e a miséria. Mas isso demora sempre algumas gerações e era preciso que os Ignacios deste mundo não cheguem ao poder em nenhum lado.

"Yes to an international campaign against a technology gap."

Vamos nessa. Obriguemos os americanos a parar e esperar pelos outros. Ou são os que vão atrás que têm que acelerar?

"Yes to an international moratorium that will preserve drinking water."

Quer dizer... não devemos bebê-la? Ou devemos construir mais barragens? E os que ainda não têm água potável, devem ser preservados de obtê-la?

"Yes also to generic medicines for all. To decisive action against Aids."

Ora que grande ideia. Vamos obrigar as empresas que criam medicamentos a fazer só genéricos! Acabemos com as marcas. Acabemos com as patentes. Isto é que vai ser investigar daqui para a frente, hein Ignacio?

"To the preservation of minority cultures. And to the rights of indigenous peoples."

E quando os indígenas quiserem mudar de vida, impedimos! Vê bem que há tipos em África que querem viver em casas e comprar coisas nos supermercados... É preciso descaramento, Ignacio! Maldita globalização...

"Yes to social and economic justice."

Muito bem! Acabemos com a sanha fiscal dos governos que espoliam os cidadãos do fruto do seu trabalho e que empobrecem as populações! Bravo, Ignacio!

"And a less market-dominated Europe."

Ooops. Cá para mim... queres aumentar os impostos! Queres mais PACs? Uma para a indústria, outra para o comércio, outra para o turismo, outra para as pescas. É isso, Ignacio?

"Yes to the Porto Alegre Consensus."

Isto é, transformemos a ciência económica num folclore e governe-se o mundo com boas vontades. Cuba everywhere, hein, Ignacio?

"Yes to a Tobin tax that will benefit citizens."

Eu também preferia uma taxa Tobin que beneficie os cidadãos a uma Taxa Tobin que prejudique os cidadãos. Infelizmente sou perfeitamente capaz de entender a segunda hipótese mas não vislumbro nenhum modo como mais um imposto pode beneficiar os cidadãos... Ajudas-me, Ignacio?

"Yes to taxing arms sales."

E eu a pensar que eras contra o mercado de armas, afinal só queres criar mais um imposto... ai, estes estatistas! E vamos taxar o tráfico de droga, também?

"Yes to writing off the debt of the poor nations."

Ó Ignacio... e deixamos que elas se endividem outra vez, ou não?

"Yes to banning tax havens."

Ó Ignacio! Não preferes banir os "Tax Hells"?

"To resist is to dream that another world is possible. And to help build it."

Já tentaram construir o novo mundo, Ignacio. Todo o século XX. Começaram em 1917. Ainda estão em Cuba. É pá, tu és um gozão... estás a fazer-te esquecido...

Ignacio, Ignacio! Não tens emenda, pois não?

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