<$BlogRSDUrl$>

sábado, junho 19, 2004

  Um e-mail sobre os Contras

"Escrevo-lhe esperando que possa publicar no seu blog esta mensagem, de raiva e indignação contra os "contras". Já que os blogs são efémeros, uma publicação que não esteja num mero comentário sempre terá um impacto para que acorde mentes idiotas. E digo-o em tom de ofensa contra tantos quantos defenderam a conservação das gravuras no Parque Paleolítico do Côa. Os 1000 caracteres dos comentários foram demasiado curtos para que pudesse calar a minha indignação.

Há anos atrás, tive a minha primeira discussão política, me que me vi num lado da barricada que não era o do politicamente correcto. Confesso, por egoísmo. A Barragem do Vale do Côa estava a ser construída, e descobriram gravuras na área que seria submergida. A alternativa colocada, desde logo, eram 2 barragens: Alto e Baixo Sabor.

Em Espanha, a uns 100 quilómetros dos sítios da discórdia encontra-se a Barragem de Almendra. A capacidade total de armazenamento de água nesta barragem compreende a capacidade de *todas* as barragens construídas em Portugal. *Todas*. Uma outra, de capacidade superior encontra-se mais abaixo, na fronteira junto ao Rio Tejo. É a única barragem capaz de prevenir cheias no Douro. Em Portugal não temos igual. Quando se fala em "controlar" cheias, estamos dependentes dos nossos vizinhos: Se Almendra abre as comportas, Régua, Porto, V.N. de Gaia são inundados. Se Almendra se aguenta, os comerciantes da zona ribeirinha na foz do Douro ficam com o coração nas mãos, mas não têm prejuízos.

Em termos energéticos, Portugal não tem grande capacidade de produção de energia própria. Como racionalizar é uma palavra inteligente, mas que tem custos de comodidade que nenhuma das figuras "inteligentes" da praça pública está disposta a pagar, temos de encontrar soluções.

Na altura em que se travou a discussão entre as duas, Côa estava a ser realizada, porque o rio desagua acima da barragem do Pocinho. Isto significa que a água podia ser transferida facilmente do Douro para o Côa, com ganhos em termos de controlo de cheias e produção de energia. O Sabor, embora a poucos quilómetros, desagua a Jusante: Logo, torna as transferências de água mais complicadas. Era o ponto em que centrei a minha discussão: Economicamente, Portugal precisa de uma barragem de grandes dimensões junto ao Douro, em especial numa terra árida como é a zona compreendida entre a Serra da Estrela e a Serra de Montesinho. O que é preferível?

Por razões de coração e pelas ja apresentadas, defendia Côa com unhas e dentes. A aldeia do meu Pai situa-se para lá do Sabor. Um vale magnífico, único, porque não tem nada. Quantas pessoas que falam agora tanto, que não sabem sequer que existem apenas 3 pontos em que estradas atravessam o rio? Quantas pessoas que falam de ambiente percorreram estradas que serpenteiam os montes, com 40 km de curvas-contra curvas? O Sabor não tem um património de flora magnífico. Tem, isso sim, silêncio, quietude, isolamento. 3 palavras pelas quais muitas pessoas estão dispostas a pagar muito. O Vale do Sabor não tem nada. Apenas fragas, sol, rebeldia no Inverno. A fronteira de Portugal podia ter sido este rio, se o Douro Internacional não fora ainda mais escarpado. Em suma, quem, de quem tanto fala sobre barragens, algum dia esteve para lá do Sabor? Em Mogadouro, e Miranda do Douro? Quem fez a estrada Macedo - Mogadouro, atravessando a ponte de Ramondes?

Por contraponto, temos o Côa. Também pleno de nada, excepto uma quinta que produz vinho, e meia-dúzia de gravuras "abertas ao público". Quantos desses que tanto falam e falaram já as visitaram? E a elas regressaram? Onde estão as dezenas de empregos e movimento que este Parque Paleolítico ia gerar? Quem, sinceramente, de entre os 50% do contra, se preocupou depois de vetar a barragem, em conhecer o local?

Os meus locais de infância vão ser destruídos apenas por culpa da elite bem-pensante do contra. Que se borrifam, perdoem a expressão, para o que as pessoas daquela região querem e sentem. Que se indigam com a EPAL e com as Aguas do Douro e Paiva, mas que não sabem que há aldeias onde não há água ao almoço no Verao. Onde não há luz pública a partir das 23h.

A escolha foi feita em 96. Apetece-me mandar todos os que tanto falam, ambientalistas e senhores da cultura á fava. Desde criança que a ponte de Meirinhos está para ser construída, mas ninguém se preocupou em manifestar-se e passar greves de fome para a construir. Pelas gravuras fizeram isso. Porque não o fizeram por tantos quantos vivem entre Sabor e Douro.

Não sabem o que é a ponte de Meirinhos? Então, porque é que querem impedir a barragem do Sabor? Se nao se importam com as pessoas, porque preocuparem-se com os animais?

Atenciosamente,
Daniel Rodrigues

PS: A minha indignacao em relacao ao assunto e as pessoas do contra teria outros termos apropriados. Mas vou guarda-los para o arbitro do Portugal-Espanha. Podem vir a ser precisos."


Fim de Página