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segunda-feira, agosto 30, 2004

  A Comunidade - (Parte 3 - As desigualdades)

Imaginem-se duas ilhas, a Ilha do Norte e a Ilha do Sul. Há 200 anos as diferenças de nível de vida entre os habitantes das duas ilhas era mínimo. Tanto na Ilha do Norte como na Ilha do Sul, 95% das populações viviam numa economia de subsistência. A vida só era ligeiramente mais fácil na Ilha do Sul porque a mãe natureza tinha-lhes sido generosa. Em cada ilha, havia 5% de cidadãos que viviam muito melhor que todos os outros. Eram os líderes políticos e religiosos, as suas famílias e os seus amigos.

200 anos depois, na Ilha do Norte vive-se uma democracia liberal. Na Ilha do Sul vive-se numa ditadura popular. Na ilha do norte os cidadãos são livres de fazer pela vida. Podem empregar-se, desempregar-se, criar negócios, importar e exportar, dedicarem-se às artes, à política e também podem não fazer nada. Há quem esteja viciado em drogas duras, viciado no jogo e quem ganhe a vida sendo apenas líder de opinião. Todos são livres de insultar os governantes e até há quem dedique todas as suas energias aos insultos. A liberdade dos cidadãos da ilha do Norte é apenas limitada pelos líderes eleitos, que colectam uma parte significativa dos seus rendimentos para "custos de condomínio". E nos tempos que correm, o preço do condomínio está pela hora da morte.

Na Ilha do Sul, os cidadãos não têm escolha. Os líderes, que mantém o poder pela força executando as vozes discordantes, não permitem que os cidadãos decidam as suas vidas. Ninguém se esforça muito porque o esforço raramente é recompensado. Os líderes planificam a vida de toda a população, teorizando no que é bom e no que é mau para todos, com base em preconceitos morais e teorias que ainda não conseguiram demonstrar.

Hoje, na Ilha do Sul, todos vivem de modo semelhante, numa economia próxima da subsistência. A desigualdade na Ilha do Sul é baixa. Apenas os líderes vivem num nível muito superior ao resto da população, tal como há 200 anos.

Na Ilha do Norte há de tudo. Há hipermilionários, multimilionários, milionários, mini-milionários, intelectuais, ricos, remediados e pobres. Há pobres que já foram ricos e ricos que já foram pobres. Há pobres que virão a ser ricos e pobres que serão sempre pobres. E há muita gente a fugir da Ilha do Sul para a Ilha do Norte e a engrossar todos os anos a estatística do número de pobres, na esperança de um dia virem a ser remediados, ricos ou mesmo milionários. Nesta ilha, o génio é quase sempre recompensado. A criatividade e a inteligência encontram quase sempre mercado. Os remediados da Ilha do Norte ganham em média dez vezes mais do que os cidadãos da Ilha do Sul. Os pobres da Ilha do Norte ganham em média cinco vezes mais do que os cidadãos da Ilha do Sul.

No entanto, em 200 anos...

O mundo ficou pior.

A desigualdade aumentou brutalmente, por culpa da Ilha do Norte. Efectivamente, há agora cidadãos na Ilha do Norte que ganham 100.000 vezes mais do que os da Ilha do Sul... A média de rendimentos entre dos nortistas é dez vezes superior à dos sulistas, enquanto que há 200 anos era apenas o dobro.

Como acabar com estas desigualdades? Só há uma hipótese a considerar: a Ilha do Norte deve alterar a sua atitude e actuar como os líderes da Ilha do Sul. Afinal, se no Sul há igualdade e no Norte desigualdade, só pode ser o Norte a corrigir o seu caminho.

(continua)

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