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segunda-feira, setembro 06, 2004

  Antes que Anoiteça

No Barnabé, Daniel Oliveira chama a Raúl Rivero, dissidente cubano, "Um Dos Nossos". É preciso ter lata. Fidel está no poder em Cuba desde os anos 50 e sempre perseguiu os seus adversários políticos. Fidel fuzilou na melhor das hipóteses cinco vezes mais que Pinochet.

Quinze mil mortos e dois milhões de fugitivos depois, a esquerda começa a renegar o regime de Cuba e a levantar a bandeira dos lutadores pela liberdade. Podemos sempre recorrer ao velhinho ditado "Mais Vale Tarde Que Nunca", mas a lata aqui é outra.

Não vou sugerir que esta mudança de atitude se deva simplesmente ao completo falhanço da aplicação prática das teorias que sempre defenderam. Seria uma possível base de argumentação, mas evitemos a confrontação demasiado brusca com a realidade. E até porque nutro simpatia pelos argumentos publicados por Daniel Oliveira quando ele sugere que é preciso defender a liberdade principalmente quando ela é atacada em nome do socialismo, procuremos outro caminho.

O Bloco, partido de que o Daniel é dirigente, foi atirar tomates a Le Pen com o Anacleto à cabeça. Os tomates até eram merecidos, apesar de Le Pen nunca ter assassinado ninguém (que eu saiba). Fidel veio a Portugal e o Anacleto não foi atirar tomates a Fidel.

O Bloco, com Anacleto à cabeça, exulta com a hipótese de prisão e exige todas as punições para o velho ditador chileno. O Bloco, com o Anacleto à cabeça não pede o julgamento no TPI do velho ditador cubano que além de ter assassinado muitos mais, não soube sair a tempo e condenou o seu povo à miséria. O Bloco apenas pede a medo a libertação de alguns dissidentes.

O Anacleto, na Assembleia, vituperou o 'mundo livre' que diz ter apoiado "Videla ou o Pinochet, o Noriega ou o Papa Doc, o Sukarno...". Nem uma palvrinha sobre o Papa Fidel.

O Bloco é uma organização que congrega a UDP, o PSR, a FER e a Política XXI. Estes partidos sempre defenderam políticas semelhantes às que Fidel aplicou em Cuba. Estes partidos dizem-se comunistas. Por questões de marketing e oportunismo político, o Bloco de Esquerda foge da palavra comunismo como o diabo da cruz. É compreensível, qualquer grupo com um mínimo de juízo e com objectivos de alargamento da base de apoio faria o mesmo.

O problema é que não se pode defender ao mesmo tempo o comunismo e a liberdade. Não há comunismo sem opressão. Não pode haver. O comunismo, ao não deixar espaço para a afirmação individual dos cidadãos só pode ser implementado se acompanhado pela limitação da capacidade de iniciativa. Se deixar a liberdade no ar não há comunismo porque a maior parte dos índividuos não aceitará a planificação da sua vida em nome do propalado bem comum. A prática encarregou-se de nos demonstrar que só há comunismo em ditadura.

Nos sites dos partidos do Bloco encontram-se pérolas destas:

"A UDP é um partido marxista, de natureza comunista, que apoia o Bloco de Esquerda."

O sistema político que traduz a democracia num regime económico-social socialista é o poder popular."

"Duzentos anos da sua vitória, o capitalismo é ainda o principal obstáculo ao desenvolvimento humano da humanidade."

"Pretendemos destruir o actual sistema capitalista-imperialista e lançar as bases do socialismo em Portugal."

"...expropriação dos grupos monopolistas; nacionalização dos principais meios de produção, circulação e troca; monopólio estatal do comércio externo; planificação democrática da economia; democracia socialista para as amplas massas e repressão concentrada sobre os capitalistas e os seus aliados armados; dissolução do exército de caserna e dos corpos especiais de repressão policial..."

"A vaga nacionalista tem agora características novas. A par das lutas anti-imperialistas - a libertação da Irlanda ou do País Basco das colonizações inglesa e espanhola, por exemplo..."

"A organização política que de seguida se designa RUPTURA/FER (Frente da Esquerda Revolucionária) ? luta contra a exploração capitalista e todas as formas de opressão do ser humano, por um regime de democracia socialista, pelo poder dos trabalhadores que garanta a transição para o socialismo e o comunismo. Entendemos por socialismo uma sociedade em que o poder é exercido democraticamente pelos trabalhadores e por comunismo uma sociedade sem classes e sem estado."

"Dezasseis anos depois do 25 de Abril, ainda estamos a dar os primeiros passos na formação de uma corrente socialista e combativa, comunista e crítica, que represente um polo na esquerda portuguesa e intervenha aberta e criativamente na reorganização social."

"O PSR é a secção portuguesa da IV Internacional. O seu objectivo é a revolução socialista que destrua o sistema capitalista e a exploração do Homem pelo Homem, criando as bases para o desenvolvimento de uma sociedade socialista, iniciando a destruição do Estado pela instauração da mais ampla democracia social e pela associação livre dos produtores."

"Restaram quatro países continuando a afirmar-se socialistas: Cuba, Coreia do Norte, Vietname e China. Cuba trava uma aguda luta nacional e antimperialista. Não sendo hoje um país que constrói o socialismo, mantém uma defesa das conquistas populares e uma resistência dignas de realce. A Coreia do Norte e o Vietname procuram resistir e adaptar-se, com ligações fortes à China."

"O PSR é uma organização voluntária de mulheres e homens que se dedicam a luta pelo socialismo e pelo comunismo."
Em resumo:

1. Só há comunismo em ditadura.
2. Onde há comunismo, há dissidentes, presos políticos e perseguições.
3. O Bloco é constituído por partidos comunistas.
4. O Daniel Oliveira do Barnabé é dirigente do Bloco.

Conclusão:

Daniel, das duas uma. Ou defendes estas pérolas da iconoclastia de esquerda do século passado, ou dizes que um dissidente cubano é "um dos vossos" e apresentas a tua demissão de dirigente do Bloco. Ou então, alternativamente, tens uma grande lata.

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