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quinta-feira, outubro 14, 2004

  Desconstruindo Derrida

Eduardo Prado Coelho ajuda-nos hoje no Público a desconstruir Derrida.


"Complexa, enredada, torturada, sofrida, dilacerada, a escrita de Derrida corresponde sempre a um esforço no sentido, não de apreender as coisas de um modo leve e soberano, mas de capturar a sua densidade infinita, a rede de implicações, a multiplicidade de conceitos, a afluência de tradições, o lastro filológico das palavras."
O Eduardo sempre primou pela clareza de ideias e pela fluência gramatical. Neste esforçado texto consegue de um modo leve e cristalino e com uma parcimoniosa escolha das palavras transmitir a infinita densidade conceptual do criador de conceitos. Continua o Eduardo:


"...[Derrida] evitou sempre os lugares de inscrição gráfica que pudessem propiciar a simplificação. Sobretudo em determinado período, procurou quebrar a monotonia do formato das páginas, instituindo colunas, desenvolvendo fios paralelos, deixando espaços em branco, criando silêncios. Esse aspecto de encenação visual era, nas aulas e conferências, duplicado por uma encenação da voz e do corpo do falante (até ao limite da auto-ironia)."
. A r e v o l u ç ã o do código escrito, a rrrrrrrebeldia conceptual dos parâmetros gramaticais, ,as .... pausas. No limite, um auto-LOL.


"... Derrida evitava as situações de entrevista segundo os dispositivos tradicionais. A cada pergunta respondia sempre por uma paciente reformulação dos termos da própria pergunta.
Um dos grandes ensinamentos que Derrida nos deixou é o de baralhar a pergunta quando não sabemos as respostas. Com alguma experiência desconstrutiva consegue-se uma aparvalhação contida da cara dos ouvintes e a transmissão de um conceito de genialidade que enbevece a intelectualidade mais avançada. A experiência do Eduardo neste campo é vasta.


"Aliás, o adiar da entrada na matéria, e a extensão dos protocolos de enunciação, numa exuberância de precauções com que pretendia evitar qualquer mal-entendido, criava no leitor uma espécie de impaciência. Em determinados textos, o escrúpulo era levado a extremos que quase nos exasperavam. E, como cada enunciado que se repetia se alterava no mecanismo da repetição, e deixava de ser exactamente o mesmo, Derrida considerava-se obrigado a analisar exaustivamente o contexto inovador que se formava com a própria novidade do enunciado."
Era isto mesmo que eu queria dizer. Era isto mesmo que eu não queria dizer. Querer ou não querer, dizer ou não dizer, procurar a forma ou ignorá-la, mas sempre sem comprometer ou descomprometer, manter sempre a transparência opaca, os textos lúcidos/translúcidos. Impressionante. Ou então não.


"Que pretende a "desconstrução"... Por exemplo, no par significante/significado existe o contraponto entre o corpo (o significante) e o espírito (o significado). Perante estes pares conceptuais Derrida procurava em princípio duas coisas: diagnosticar o elemento dominado na imprescindível hierarquia (por exemplo, o corpo) e tentar reequilibrar o processo. Encontrar um terceiro termo, aparentemente insignificante, e a partir daí ir desfazendo as oposições cristalizadas. Na sua famosa "gramatologia", Derrida inverte a relação escrita/oralidade, e dá à escrita o papel primordial. Ao mesmo tempo cria um conceito (Derrida é um extraordinário criador de palavras/conceitos novos) que só funciona em termos de escrita (a oposição entre "difference" e "differance", na qual a "différance" suscita uma pluralidade não totalizável e indecidível: o seu sentido não pode ser decidido a não ser por uma escolha cega e pontual). É aqui que se vai abrir o espaço para aquilo que é uma das ideias obsessivas de Derrida: a desconstrução é afirmativa, é a mais alta celebração da vida, é a espera do inaudito, é um messianismo sem messias."
Agora que na hierarquia dos corpos Derrida transmutou o significante em significado, reconheca-se que sem esta explicação clara e espantosamente didáctica muitos de nós nunca teriam compreendido o problema de indecidibilidade.

Obrigado Eduardo. Escreveste um texto diferante. Inteligante. Um texto messiênico. Não messiânico, mas messiênico. Messiênico porque transmite uma pluralidade não totalizável, mas certamente indecidível.


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