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sexta-feira, fevereiro 18, 2005

  Escritos Antigos

13/Jan/2002, após a fuga de Guterres e a 2 meses das eleições que levaram Durão Barroso ao poder.

"O nosso maior (enorme!) problema a médio longo prazo chama-se despesa pública. Como fazer cortes substanciais nesta despesa quando todos aqueles cuja vida depende do orçamento de estado lutarão sempre, com maior ou menor justiça, por um aumento do seu quinhão?

Qualquer médico ou enfermeiro dirá que o estado devia investir mais na saúde. Qualquer professor ou estudante grita por mais recursos para a educação. Os sindicatos da função pública querem aumentos de 6% e melhores carreiras com mais promoções. Os reformados e pensionistas querem melhores reformas e pensões. Os magistrados exigem mais investimentos na justiça. Os polícias querem mais subsídios, melhores salários e os seus comandantes querem aumentar o perfil académico das corporações. Os militares querem submarinos e aviões, melhores salários e regalias. A Frente Unida para a Cultura quer triplicar as despesas na cultura. As autarquias exigem aumentos de fundos e criam fontes de despesa rígida sem parar. Agora são as Polícias Municipais. O RMG já vai em mais de 410.000 beneficiários e não para de crescer (num país onde se tem vivido quase em pleno emprego).

E há mais. O nosso futuro exige que o governo invista fortemente em infra-estruturas. No cenário actual, Portugal já foi o país da Europa de menor crescimento wm 2001. Somos os mais pobres e cada vez estamos mais atrás.

No futuro próximo (a partir de Abril...) podem acontecer duas coisas, independentemente de quem ganhe as eleições:

Podemos continuar como até aqui, aumentando todos os anos o quinhão de estado e correndo mais tarde ou mais cedo o risco de estouro. Ou podemos cortar forte na despesa pública. Teremos guerras e guerrinhas, corporações em peso em protesto, clima de guerrilha institucional e um governo de curta duração. Cortar forte na despesa pública só pode significar um explosivo cocktail que incluirá na sua receita coisas como programas de redução de funcionários públicos, encerramento de dezenas de institutos e comissões, concessões de serviços até aqui públicos, menos dinheiro para a saúde, educação e cultura (encerramento de escolas, diminuição de subsídios), cortes importantes em subsídios e na segurança social, privatizações da RTP, TAP, ANA, etc. Mas... só assim poderemos esperar taxas de crescimento futuras que nos aproximem da UE. Quem terá coragem? Estas coisas não são fáceis de conseguir em democracia.

Podemos também tentar o meio termo. Andar sem grande sobressaltos, com algum mau estar em alguns sectores, com taxas de crescimento baixas e com necessidades evidentes de aumento regular de impostos, vivendo do turismo e de pouco mais. Ferro Rodrigues dizia numa entrevista recente que o aumento de gastos sociais era indispensável para nos aproximarmos de modelos sociais mais desenvolvidos do tipo do norte da Europa. É justamente esse o nosso problema. Temos um governo com gostos escandinavos e um povo com uma realidade latina. Chama-se a isto pôr o carro à frente dos bois. Mas que dá votos, lá isso dá!"

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