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quinta-feira, março 10, 2005

  A Biblioteca Itinerante

No Abrupto escreve-se sobre a biblioteca itinerante da Gulbenkian. Boas memórias. Fui 'cliente' frequente da carrinha cinzenta que estacionava no largo da terra a cada 15 dias. Na altura eram as grandes aventuras que me entusiasmavam. Miguel Strogoff, Ivanhoe, os Três Mosqueteiros, D.Quixote. Se a memória não me falha, o limite estava nos 6 livros a cada duas semanas.

Do que não me esqueço é do dia em que peguei num livro sobre o qual tinha ouvido falar mas nem sabia muito bem sobre o que era. 'O Arquipélago de Gulag' de Soljenitsin. Quando o politizado condutor/bibliotecário/arquivista viu o livro nas mãos de um jovem de 14 ou 15 anos, não se conteve. Fez tudo para mudar a minha opção. Sugeriu-me alternativas à esquerda. Explicou-me que este autor não era credível e que vivia como um nababo num castelo nos Alpes, amantizado com uma baronesa austríaca multi-milionária rodeado de criados, sempre bêbado. O livro era um chorrilho de sugestões mentirosas sobre a União Soviética e tinha como objectivo desmotivar as pessoas para a construção do comunismo. O autor recebia milhões dos magnatas americanos para inventar aquelas histórias.

A prelecção foi tão forte que mal cheguei a casa, peguei no Arquipélago e devorei-o em três tempos. Passadas duas semanas voltei à carrinha cinzenta. Entreguei os livros e, de entre a nova leva, escolhi propositadamente 'O Pavilhão dos Cancerosos'. Desta vez não houve 'sessão de esclarecimento'. Apenas o silêncio foi esclarecedor, amplificado por um olhar quase assassino...

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