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quarta-feira, abril 13, 2005

  Para que Servem os Governos Civis(*)

No Diário da República n.º 70, Série II de 2005-04-11, o Governo Civil do Porto faz publicar a extensa listagem de subsídios atribuídos no segundo semestre de 2004.

Naquele curto período de 6 meses, quase 700 entidades tiveram direito a cheque e isto apenas num dos dezoito Governos Civis da terra lusa. A leitura da listagem permite-nos compreender quais as prioridades do estado para levar Portugal para a linha da frente da Europa moderna.

Por exemplo, as artes marciais são uma das apostas fulcrais do governo civil do Porto. A Associação Bushidokan Artes Marciais e a Karate Shotokan de Vilas das Aves receberam ambas um subsídio de 500 euros. Já o Clube de Karate da Maia levou 750. O critério deve ter a ver com o número de tijolos partidos de um só golpe à porta do Governo Civil.

A Banda Marcial de Ancede, que tanto pode especialista em pancadaria como em música, levou 1000 euros. Bem aproveitadinho, compram uma tuba em segunda mão e ainda sobra um tijolo para cada um dos seus 50 membros.

O desporto não foi esquecido pelo senhor Governador Civil, mas foram cometidas várias injustiças. Tanto o Clube de Bilhar de São José como o Grupo de Amadores de Pesca do Marão foram brindados com 500 euros mas o Clube de Minigolfe do Porto teve o dobro. Nota-se a preferência do governador pelo Club em detrimento do Taco e da Cana. E também gosta da pinga. A Liga Amigos da Saúde e do Vinho teve chapa 1000.

Lendo a lista de prendados, ficamos a saber que a Sobrosa tem um Salão Paroquial. O Salão Paroquial tem um Grupo de Amigos, e alguns desses amigos gostam de rufar os bombos nas festas. Vai daí, o Grupo de Bombos dos Amigos do Salão Paroquial de Sobrosa recebeu 500 euros, o que dá para investir em 4 instrumentos ou, alternativamete, pagar uma jantarada aos bombistas.

Outras associações musicais na lista das prebendas comprovam mais uma vez desigualdades de tratamento. Por exemplo, o Grupo Zés Pereiras "os Amigos do Galego", só conseguiu 500 euros, mas a Fanfarra Recreativa e Cultural do Olival teve direito a 2500! Um exagero, mesmo sabendo que as fanfarras são muito necessárias em períodos eleitorais para abrilhantar inaugurações.

Um facto curioso ocorreu com a Associação Palavra em Mutação. O subsídio atribuído tinha sido de 500 euros, mas a palavra quinhentos transmutou-se em mil na altura da publicação.

O futebol foi, como sempre, bastante apoiado. Foram dezenas os clubes de bairro que receberem o cheque do erário público. E também aqui há muitas diferenças de tratamento. Por exemplo, o Grupo Desportivo dos Cem Paus levou com 1000 vezes cem paus, o que dá aproximadamente 500 euros. Já o muito necessitado clube do bairro das Antas, o Futebol Clube do Porto teve direito a dois quinhentinhos, um pequeno contributo para os rebuçadinhos e para as frutinhas imprescindíveis ao desenvolvimento de alguns desportos da noite na Invicta.

Também a Associação Nacional de Treinadores de Futebol foi brindada com 2500 euros. Os pobres treinadores agradecem a esmola, que servirá para ajudar membros da associação em dificuldades, na sequência de atitudes prepotentes das entidades patronais. Diz-se que um tal José Couceiro será o próximo a procurar apoio.

Já a Associação Portuguesa de Adeptos, uma invenção de um programa da TSF, recebe 500 euros, montante suficiente para levar 10 adeptos ao Alvalade XXI, à final da taça UEFA.

Ainda no âmbito desportivo, o Governo Civil ofereceu 2500 euros à Associação de Paraquedistas do Norte, na sequência de uma cunha de um dos seus membros mais proeminentes, José Raul dos Santos.

A Associação das Donas de Casa de Gondomar teve direito a 500 euros e a Associação Taurina Povoense a 750. Por intuição, desconfio que algumas donas de casa de Gondomar são casadas com membros da associação dos taurinos da Póvoa.

Por falar em Póvoa, tive uma boa ideia para a Associação de Ocupação Sadia do Lazer gastar os 750 euros que receberam. Podem aplicá-los numa viagem de grupo ao casino da Póvoa.

Em Matosinhos, a Associação dos Pescadores Aposentados de Matosinhos vai gastar os seus 750 na compra de minhocas.

Já os Amigos da Investigação Criminal receberam 500 euros. Como a Investigação Criminal é uma coisa discreta, a associação é secreta.

Preocupante foi a atribuição de um subsídio a uma organização terrorista. Não se compreende por que carga de água foram dar dinheiro ao Centro Armado de Investigação e Reflexão do Teatro. E depois ainda dizem que querem controlar o tráfico de armas.

O governador civil mostra uma grande simpatia por quem gosta de matar bichos ao tiro. Atribuiu 1000 euros à Associação de Caçadores e Pescadores Ovil Loivos do Monte e 500 à Associação dos Caçadores das Terras de Faria, o que lhes permitirá comprar umas centenas de cartuchos e rebentar com as entranhas a umas dezenas de pássaros. E, sabendo que por vezes alguns destes cartuchos atingem por engano as existências da Sociedade Columbófila de Santa Marinha do Zêzere, foi atribuído um subsídio de 500 euros a esta sociedade que lhes permitirá proceder à reposição de stocks.

Ainda neste sector, a blogosfera não foi esquecida. A Sociedade Columbófila de Retorta abarbatou-se com 500 euros.

O bem estar dos colaboradores das microempresas não foi esquecido. A Casa de Pessoal da RTP recebeu 500 euros e o Clube de Colaboradores da Axa Portugal - Companhia de Seguros outro tanto. Ainda bem. Assim já podem suportar melhor o tédio das horas mortas.

Quem respirou fundo com o subsídio foi a Associação dos ex-Marinheiros da Armada Briosaminzade. 750 euros não chegam para pagar o almoço a esta gente toda, mas foram um boa ajuda para as pipas.

Ao que consta se não fosse a redistribuição de riqueza que estes subsídios representam, os membros da Direcção Regional Norte da Associação Portuguesa de Management já estariam a passar fome. Os 500 euros permitiram-lhes adquirir dois quilitos de lagosta e 3 garrafas de Moet & Chandon. Após o repasto salvador, os membros da associação com o estômago mais aconchegado, entraram nos seus Mercedes e BMWs e partiram para gerir convenientemente as suas empresas.

Uma crise enorme afectou os escuteiros. Parece que o Corpo Nacional de Escutas, Agrupamento nº 695, que recebeu apenas 500 euros, não ficou nada contente com os 750 euros que foram atribuídos ao Corpo Nacional de Escutas, Agrupamento nº 1173. E, claro, os outros 1171 agrupamentos também têm todos direito ao cheque. Foi Baden-Powell que terá dito "Ou há moralidade ou comem todos."

Para garantir a dignidade do futuro de muitos políticos distribuidores de subsídios, a Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino recebeu 1000 euros.

O por fim, o grande subsídio. O que se livrou da lei dos 500, da lei dos 1000 ou mesmo dos 2500 euros. O grande beneficiado. A única organização que teve direito a um bolo grande só para si. Fiquem então a saber que o Governo Civil do Porto, atribui um subsídio em três tranches no valor de 92.174,65 euros (noventa e dois milhares, cento e setenta e quatro euros e sessenta e cinco cêntimos) ao Centro Recreativo e Social do Pessoal do Governo Civil do Porto.

Lá diz o ditado. "Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte..."

(*) com os meus agradecimentos a AP, pela dica.

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