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segunda-feira, maio 02, 2005

  Adivinhação

Hoje há Prós e Contras na RTP1. O tema é o do momento, o perigo amarelo: o Negócio da China em Portugal.

Vamos a um exercício de adivinhação. Vão participar no debate um sindicalista, um secretário de estado e um empresário do sector têxtil. Todos eles, sem excepção, vão falar da importância do comércio mundial mas vão exigir protecção do mercado, em nome de vários "direitos". Por exemplo, vão argumentar que na China não há direitos sociais, que há dumping social, que os trabalhadores são escravizados, que Portugal não é nada sem indústria têxtil. Os consumidores vão ser ostensivamente ignorados. Também vai estar por lá um economista keynesiano, que será contestado por todos os presentes se tiver o ténue atrevimento de sugerir que o país ganha com a entrada dos têxteis chineses no nosso mercado e ganhará tanto mais quanto mais baratos eles forem.

O empresário vai afirmar que Portugal não tem qualquer hipótese de competir com os chineses em nenhum mercado e que se os deixarmos entrar vamos tornar-nos num país de pelintras. Ninguém vai responder que se formos todos pelintras seremos novamente competitivos. E o empresário vai deixar-se no ar um apelo subliminar à intervenção do estado, em defesa do salário dos seus empregados e dos custos de manutenção dos seus Mercedes.

O secretário de estado vai argumentar que o governo está a lutar com unhas e dentes pela cláusula de salvaguarda e vai deixar implícitas críticas ao governo anterior por não ter feito nada a este respeito, sem nunca dizer o que é que deveria ter sido feito.

O sindicalista, o secretário de estado e o economista estarão vestidos com roupa "Made in China", excepto os que se lembrarem de arrancar as etiquetas antes do programa começar.

Na plateia vai estar um senhor que exporta para a China e talvez um que já produz na China. Vão ser entrevistados, o que exporta vai ser aplaudido, o que produz não. Mal acabem de falar virá o intervalo e mais ninguém se lembrará deles. Na segunda parte a ladainha da salvaguarda continuará.

Um trabalhador da indústria têxtil do Vale do Ave, casado com uma trabalhadora têxtil do Vale do Ave e pai de uma jovem trabalhadora têxtil do vale do Ave fará uma intervenção em defesa dos postos de trabalho portugueses e contra os postos de trabalho dos chineses contra a exploração de mão-de-obra escrava na China. Vai defender a concorrência, mas não esta que é concorrência desleal. Vai também dizer que não há mais empregos em Portugal e que por isso as fábricas não podem fechar sob pena de termos 10 milhões de desempregados.

Após esta intervenção, a apresentadora voltar-se-á para o economista e questioná-lo-á sobre o drama do desemprego. O economista vai balbuciar uma ou duas generalidades sobre o tema e acaba a atirar culpas para quem não fez o que deveria ter sido feito em tempo, quando já se sabia que isto iria acontecer, sem nunca explicar que o que já se devia ter feito em tempo era abrir o mercado, e hoje já ninguém falava na crise dos têxteis, como já ninguém fala na crise dos ferradores, na crise dos correeiros, na crise dos aguadeiros, na crise da olaria ou na crise dos aduaneiros.

Também vão aparecer uns comerciantes a exigir a fiscalização das lojas chinesas e uma senhora a contar que no bairro dela já há quatro lojas dessas e que de algum lado lhes vêm o dinheiro, que eles têm-no a potes.

E no fim, não sobrarão dúvidas a ninguém que é preciso atacar o perigo amarelo. E daqui a uns anos, 9,8 milhões de portugueses estarão a pagar o seu vestuário bastante mais caro e a empobrecer lentamente, para que 250.000 trabalhadores do Vale do Ave possam manter o seu modo de vida no limiar da pobreza a produzir exactamente o mesmo que os chineses fazem consumindo um terço dos recursos, cada vez mais reduzidos principalmente ao mercado doméstico, que por não chegar para todos não vai evitar 80% das falências anunciadas.

E daqui a meia dúzia de anos teremos um debate exactamente igual, sobre o fim da cláusula de salvaguarda e a necessidade urgente de se protegerem os postos de trabalho em perigo no Vale do Ave.

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