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sexta-feira, maio 06, 2005

  Um Governo Derridiano

A adjudicação ao concorrente vencedor do concurso do novo sistema de comunicações para as polícias foi anulada. Note-se que não foi anulado o concurso, apenas a adjudicação. Muito adequado, principalmente porque só houve um concorrente. Vão renegociar com o mesmo consórcio aquilo que já havia sido negociado. Vão dar mais 50 por "A" para poderem anunciar com pompa e circunstância que deram menos 20 por "B". O consórcio esfrega as mãos de contente. O que interessa é que a imprensa já anunciou nas primeiras páginas que a medida do anterior governo foi desconstruída.

A anunciada troca de manuais escolares foi anulada. A medida também não era grande coisa a até já funcionava em alguns escolas sem ter sido necessário amen e decreto do ministério. Agora a troca foi destrocada. Motivos relevantes não há. O que é importante é que a medida anterior foi desconstruida.

O governo está a dar uma mãozinha aos putativos candidatos às Câmaras de Lisboa e do Porto ajudando a desconstruir túneis. Em Lisboa, o objectivo é só tentar atrasar um bocadinho a coisa, não vá aquilo dar ares de quase pronto a tempo das eleições. No Porto é mesmo só para chatear a vida aos portuenses e atirar as culpas para Rui Rio. Quando não se desconstrói, pelo menos atrapalha-se a construção.

A única opção lógica que ouvi até agora para os aeroportos de Lisboa foi a de António Mexia. Manter a Portela e adaptar o Montijo para as low costs. O actual ministro já desconstruiu verbalmente esta opção. É barata demais, não presta. O que vale é que neste governo também há quem desconstrua a absurda opção da OTA. E enquanto se desconstroem uns aos outros, esperemos que não nos desconstruam demasiados milhões. Já sabíamos que este ministro é perito na desconstrução, como provou ao desconstruir a empresa das águas num emaranhado de empresinhas, com as consequentes vagas nas várias administrações para oferecer a quem precisa. A técnica mantém-se viva, não há motivos para admiração.

O oscar da desconstrução vai para o Ministério da Saúde. O ministro, que antes de ser empossado anunciou que não mexeria no modelo dos hospitais SA até avaliar a performance dos mesmos, foi desconstruído pelo primeiro-ministro que resolveu desconstruir o que tinha sido construído pelo ministro do seu antecessor. Logo a seguir, o mesmo ministro desconstruiu o protocolo com as misericórdias, que estava a funcionar, e desconstruiu a promessa do nosso primeiro de construir 5 dos 10 novos hospitais. Na volta, veio de lá o primeiro e desconstruiu outra vez a opinião do ministro, anunciando que é mentira, que sim senhor, que um dia, é logo assim, há-de vir e oxalá. Este tipo de actuação política, há apenas 6 meses, tinha o nome de trapalhada e era capa de todos os jornais em letras gordas. Agora só dá para notas de rodapé.

A lei das rendas também anda desconstruída. Vai aparecer um sucedâneo daqui a uns meses que desconstruirá definitivamente a anterior. Hoje foi a vez do ministro da educação que anunciou a desconstrução dos cursos superiores com menos de 20 alunos. Triste país o nosso, em que o ministro iluminado decide o que se deve e o que não se deve ensinar. O ministro do controle de opinião também quer desconstruir os excessos de liberdade de imprensa. A imprensa não reage, para não acordar o governo. E claro, o facto do ministro ter mandado um recado à RTP por causa da «falta de diversidade de comentário e opinião» não tem absolutamente nada a ver com uma história de um outro ministro que fez o mesmo meia dúzia de meses antes, referindo-se exactamente ao mesmo personagem. O outro fez um trapalhada e uma pressão ilegítima, este fez uma sugestão, prontamente aceite.

Este governo também já desconstruiu várias vezes a questão do aborto. Há referendo, não há, é agora, é depois, vá lá sr. Presidente, ai que me vou a eles. Na última versão, esperam desconstruir as sessões legislativas. Não, nos tempos que correm isto também já não se chama trapalhada. Nada disso. É apenas uma tentativa de busca de soluções.

O ministro da justiça também já disse para aí uns disparates, depois desconstruiu o que tinha dito e pediu desculpa, no meio da coisa chamou parvo ao líder parlamentar do PP, depois voltou a desconstruir-se e a pedir desculpa e de passagem aproveitou para insultar os juízes. Não, mais uma vez, isto não são trapalhadas. São apenas marcas de uma acção política sublinhada por um estilo novo. No pasa nada. Os jornalistas desculpam o ministro e o que não faz título não é auto-golo.

Anuncia-se também um défice de 6% e investimentos de quatrilhões de euros o que acabará por desconstruir definitivamente as contas públicas. Claro que não se vai fazer nem metade do que se anuncia, mas é assim mesmo. É o estilo. Santana já disse que gosta. Pois.

Na prática, ao fim destas primeiras semanas, o governo não fez nada digno de nota excepto ser oposição ao governo anterior e anunciar meia dúzia de irrelevâncias. Mas essa é a verdadeira prática socialista. Foi nisto que os eleitores votaram e o país gosta. Basta ler os jornais para ver como anda tudo bem. Tudo jóia.

Temos um verdadeiro governo derridiano.

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