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quarta-feira, junho 08, 2005

  Juros, Impostos, Lucros e Koeman

Ontem pela tardinha, estava eu à procura de umas coisas antigas num disco de backup quando encontro um velho documento do tempo em fui bancário, que continha a explicação de um conjunto de fórmulas que constavam dum pacote financeiro para Excel. Uma das fórmulas era particularmente interessante:


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Esta era uma expressão simplificada para estimar as taxas de juro base para um determinado tipo de empréstimos. Na fórmula, i é a taxa de juro calculada para equilibrar um dado financiamento, f CP é a fracção de capitais próprios que o banco é obrigado a utilizar para financiar cada empréstimo (se bem me lembro, 4% no caso do crédito à habitação e 8% na generalidade dos empréstimos), RCP é a Rentabilidade exigida para os Capitais Próprios, habitualmente determinada pelo CAPM (Capital Asset Pricing Model) , t é a carga fiscal marginal associada a esta actividade (IRC+Derrama), CD é o risco associado ao financiamento, calculado como custos de default (Probabilidade de Incumprimento * Valor Esperado da Perda em Caso de Incumprimento ou Perdas médias em carteiras de risco equivalente), Cadm são os custos administrativos médios associados à gestão de cada tipo de passivos, Padm representa outros proveitos associados a este financiamento (comissões e outras taxas cobradas ao cliente, etc.) e RCA o Custo médio dos recursos captados pelo banco na sua actividade de angariação de depósitos.

E porque é que esta fórmula é interessante? Por causa da letrinha t. É que a taxa de juro está absolutamente indexada ao custo do imposto. Quando alguém pede que os bancos paguem mais impostos, está basicamente a pedir que as taxas de juro aumentem. Quem vai pagar esse acréscimo de imposto é sempre o cliente. E paga-o por dois motivos. 1) porque a taxa influencia directamente o preço do dinheiro e 2) paga porque o banco ao ficar menos competitivo aumenta os custos administrativos relativos (custos bastante rígidos que não se alteram facilmente quando as carteiras de crédito diminuem)

Claro que é difícil explicar estas coisas a quem só se preocupa com os 'lucros excessivos' do sector financeiro. Hoje tive uma experiência surrealista ao almoço. Eu bem tentei argumentar «que um lucro do BPI de 192 milhões de euros é apenas 8,5% da sua capitalização bolsista o que não me parece nada de especial para quem está disposto a investir em acções», mas do lado de lá só ouvia: «É um escândalo! 192 milhões! Um escândalo! Porque é que não me baixam a taxa de juro do crédito à habitação?», isto vindo da mesma pessoa que se queixava que «os Caixagestes não me estão a dar nada». E eu perguntava: «Mas se acha que 8,5% é muito, como é que quer que a Caixageste lhe pague mais? Onde é que pensa que eles vão buscar o dinheiro?» e de lá só vinha «Desculpe lá, mas isto é um escândalo, 192 milhões é um escândalo, para que é que eles querem tanto dinheiro?» E lá ia eu: «Talvez para poderem remunerar os seus accionistas a 8,5%, não acha?» «Não, acho muito bem é que lhes aumentem os impostos!». «Mas depois a sua taxa de juro sobe»... «Então é preciso que o governo ponha já a mão nisto!».

Foi então que resolvi a discussão com a pergunta definitiva: «Então, já sabe que o Koeman vem para o Benfica?»

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